Autoria: Dr. Cadu Gazzinelli — Cirurgião plástico, CRM-MG 46604 · RQE 33588.
Publicado e atualizado em 09/09/2026.
Sim. O AAS, também conhecido como aspirina ou ácido acetilsalicílico, pode facilitar o sangramento. Na recuperação de uma cirurgia plástica, isso pode significar maior preocupação com sangue acumulado na região operada. Mas há uma ressalva essencial: quem usa AAS por orientação médica não deve suspendê-lo por conta própria. Em algumas pessoas, o medicamento oferece uma proteção cardiovascular importante. [1–3]
Por isso, a pergunta não é apenas “esse remédio aumenta o sangramento?”. É também: “por que eu tomo esse remédio e o que pode acontecer se eu o interromper?”.
O que o AAS faz com o sangue?
Quando um pequeno vaso é machucado, as plaquetas — pequenos componentes do sangue — se juntam para ajudar a fechar o local. Pense nelas como uma equipe que inicia um reparo. O AAS reduz parte dessa capacidade de se agregar. É por isso que ele é chamado de antiagregante plaquetário. [4]
A expressão “afinar o sangue” é popular, mas não significa que o sangue fique mais líquido, como se tivesse recebido água. O que muda é uma etapa da formação do tampão que ajuda a conter o sangramento.
Durante uma cirurgia, pequenos vasos são cortados e o cirurgião trabalha para controlar o sangramento. Um medicamento que interfere nas plaquetas é, portanto, uma informação relevante para planejar a operação e acompanhar a recuperação. [4,5]
O que isso pode mudar no pós-operatório?
Uma mancha roxa na pele não é a mesma coisa que uma coleção de sangue acumulada sob os tecidos. Essa coleção é chamada de hematoma. Dependendo do tamanho e da evolução, ela pode exigir avaliação e tratamento além dos cuidados habituais.
No Neligan, o capítulo sobre lifting facial relaciona o uso de aspirina entre os fatores associados ao hematoma. Também explica que um hematoma que está aumentando pode precisar de drenagem cirúrgica rápida. Isso não significa que toda pessoa que toma AAS terá essa complicação, nem que todo roxo depois da cirurgia seja perigoso. [5]
O efeito prático merece atenção: o sangramento não é apenas uma questão da aparência da pele. Em determinadas situações, pode mudar os cuidados e exigir uma nova intervenção.
O que os estudos realmente mostram?
Um estudo importante, chamado POISE-2, avaliou 10.010 pessoas submetidas a cirurgias não cardíacas. Sangramento importante ocorreu em 4,6% do grupo que recebeu aspirina e em 3,8% do grupo placebo. A pesquisa não encontrou redução de morte ou infarto no resultado principal ao considerar toda a população estudada. [1]
Esses números não são uma previsão do risco individual de quem vai fazer uma cirurgia plástica: o estudo envolveu diferentes operações e pessoas com risco de complicações vasculares.
Uma revisão de 2025, reunindo estudos de retirada de lesões da pele, também encontrou associação entre uso de aspirina e maior chance de sangramento. Entretanto, muitos estudos tinham limitações de comparação entre os grupos. Além disso, retirar uma lesão da pele não equivale a fazer uma abdominoplastia ou uma cirurgia de mama. [4]
A leitura cuidadosa é esta: existe motivo científico para considerar o AAS no planejamento, mas não para aplicar o mesmo percentual de risco ou a mesma conduta a todas as operações.
Se aumenta o sangramento, por que nem sempre é suspenso?
Porque o medicamento pode estar prevenindo um problema mais grave. Isso é especialmente relevante para quem já passou por angioplastia, procedimento usado para tratar uma artéria do coração, muitas vezes com a colocação de um stent — uma pequena estrutura que ajuda a mantê-la aberta.
A diretriz cardiovascular AHA/ACC de 2024 recomenda, quando possível, manter o AAS em pacientes com angioplastia prévia que farão uma cirurgia não cardíaca. A decisão precisa considerar o risco de sangramento e o risco cardíaco. [2]
O Neligan também faz uma ressalva no capítulo de lipoaspiração: quando há necessidade médica do medicamento, o médico responsável ou especialista deve ser consultado antes de interrompê-lo. [6]
Assim, duas pessoas que tomam o mesmo comprimido podem receber orientações diferentes. Isso não é necessariamente uma contradição: o motivo do tratamento e a cirurgia planejada podem ser diferentes.
A saúde da paciente vem antes da cirurgia estética. Como se trata de uma cirurgia eletiva, é possível escolher um momento mais seguro para realizá-la. Se o AAS está cumprindo uma função importante de proteção cardiovascular, a solução pode ser adiar a operação — e não suspender um tratamento necessário apenas para manter a data da cirurgia. Essa decisão deve ser compartilhada entre a paciente e os médicos responsáveis. [2,6]
O que levar para a consulta?
Para facilitar essa avaliação, organize as informações:
- Nome do medicamento e dose; uma foto da embalagem pode ajudar.
- Motivo do uso e quem o prescreveu.
- Frequência com que toma e quando foi a última dose.
- Histórico de infarto, angioplastia ou colocação de stent, se houver.
- Outros remédios e suplementos em uso.
Peça que a orientação sobre manter, interromper ou retomar o AAS fique clara. Se houver recomendações diferentes entre os médicos, avise a equipe para que elas sejam alinhadas. Não escolha sozinho qual seguir. [2,3,6]
Quando falar com o cirurgião sem esperar o retorno?
Se uma região operada estiver aumentando rapidamente de volume, especialmente com dor crescente ou sangramento persistente, entre em contato imediatamente com a equipe. Não tente drenar ou manipular a área em casa. Um hematoma em expansão precisa de avaliação rápida. [5]
Sangramento intenso, desmaio ou falta de ar importante exigem atendimento de urgência. Esses sinais não devem ser atribuídos automaticamente ao AAS nem avaliados apenas por mensagens.
Este conteúdo é educativo e não substitui a avaliação individual nem a orientação dos médicos responsáveis pelo seu tratamento.
Resumo do estudo — referência 1 · Registro bibliográfico — referência 4



