Autoria: Dr. Cadu Gazzinelli — Cirurgião plástico, CRM-MG 46604 · RQE 33588.
Publicado e atualizado em 10/09/2026.
Quem usa corticoide continuamente não deve interrompê-lo por conta própria para fazer uma redução das mamas. O planejamento precisa considerar por que o medicamento foi prescrito e se o organismo consegue produzir cortisol suficiente durante a cirurgia. Em determinadas situações, a equipe programa corticoide pela veia. Isso não significa que toda paciente precise do mesmo esquema. [1][2]
Por que simplesmente parar pode ser um problema?
Corticoides são medicamentos usados, entre outras finalidades, para controlar inflamação e doenças em que as defesas do corpo atacam seus próprios tecidos. No uso prolongado, podem reduzir a produção natural de cortisol, um hormônio importante para a resposta do organismo ao estresse físico. [1]
Se essa produção estiver insuficiente, a retirada abrupta pode deixar o corpo sem a cobertura hormonal necessária. Essa situação é chamada de insuficiência adrenal. Quando a insuficiência é importante, o estresse físico da cirurgia pode desencadear uma descompensação grave, com queda importante da pressão arterial, chamada crise adrenal. Essa crise exige atendimento imediato; não é uma consequência inevitável para quem usa corticoide. A cirurgia exige que a equipe considere esse risco, inclusive quando o medicamento foi suspenso recentemente. [1][2]
Há outra pergunta inseparável: a doença que motivou o tratamento permite interrompê-lo? A diretriz conjunta das sociedades europeia e americana de endocrinologia orienta que a tentativa de retirada do tratamento prolongado considere o controle dessa doença e se o corticoide ainda é necessário. Não se trata de parar apenas para cumprir uma data cirúrgica. [1]
Quando entra o corticoide endovenoso?
Endovenoso significa administrado pela veia. A equipe pode precisar dessa via quando a paciente não consegue receber ou absorver adequadamente a medicação oral, além das situações em que é indicada cobertura para o estresse cirúrgico. A avaliação considera o tratamento prévio, a função hormonal, a anestesia e o porte do procedimento. [1][2]
Para pessoas com uso atual ou recente e insuficiência adrenal não descartada, a diretriz de 2024 recomenda cobertura em situações de estresse e administração por via parenteral — fora da via digestiva, por injeção, sendo a via endovenosa um exemplo — em procedimentos sob anestesia geral ou regional, entre outras condições. Essa recomendação tem um contexto definido: não é uma regra para qualquer pessoa que tomou um corticoide alguma vez. [1]
Receber mais corticoide é sempre mais seguro?
Não. Uma revisão dedicada ao período cirúrgico aponta que as doses e a duração da suplementação ainda variam e que faltam estudos grandes para resolver todas as situações. Os autores defendem evitar excesso desnecessário e ajustar a cobertura ao estresse da cirurgia, mantendo atenção à condição clínica. [2]
Por isso, este artigo não oferece uma tabela de doses. Escolher o medicamento, a quantidade, a via e o momento de voltar ao esquema habitual é uma decisão da equipe que conhece a paciente. O plano deve estar claro antes da internação, e não ser improvisado pela própria paciente na manhã da cirurgia.
E a cicatrização da redução das mamas?
Essa é uma questão diferente da reposição hormonal durante a cirurgia. O Neligan descreve como os corticoides podem interferir nos processos de reparo da ferida, incluindo inflamação e formação de colágeno, uma proteína que participa da estrutura dos tecidos. O tratado ajuda a entender o mecanismo; não determina sozinho o esquema de medicação de cada paciente. [3]
Um estudo retrospectivo de 94.140 operações plásticas encontrou associação entre uso crônico de corticoide e complicações. A redução das mamas estava entre os procedimentos com associação identificada. Como o estudo analisou registros, o achado não prova que o medicamento, isoladamente, explique cada complicação e não permite prever o resultado individual. [4]
Reconhecer esse risco não autoriza retirar uma medicação necessária. A avaliação precisa juntar segurança hormonal, controle da doença de base e condições para cicatrizar. Também não significa que toda paciente em tratamento esteja impedida de operar.
O que levar à consulta pré-operatória
Para facilitar essa conversa, reúna o nome do medicamento, a dose prescrita, há quanto tempo usa, alterações recentes e o motivo do tratamento. Se já parou, informe quando e como isso aconteceu. Leve a receita ou a embalagem se não souber os detalhes.
Peça que o plano esclareça o que fazer com a medicação no dia da operação e depois dela. Não use este texto para suspender, substituir comprimidos por injeções ou aumentar doses.
Conteúdo educativo. Não substitui avaliação médica nem orientação individual sobre medicamentos.



