Autoria: Dr. Cadu Gazzinelli — Cirurgião plástico, CRM-MG 46604 · RQE 33588.
Publicado e atualizado em 11/09/2026.
Hemoglobina baixa antes da abdominoplastia merece investigação, não apenas uma tentativa de melhorar o número no exame. É preciso entender a causa, avaliar a saúde da paciente e decidir se há condições de manter a cirurgia ou se é melhor adiar. Na minha prática, essa decisão é discutida com o anestesista e, quando necessário, com o especialista que poderá ajudar a esclarecer e tratar a causa.
O que esse resultado significa?
A hemoglobina é a proteína das células vermelhas do sangue que transporta oxigênio. Quando sua concentração está abaixo do esperado, pode haver anemia. Ela não tem uma causa única: falta de ferro, perdas de sangue, deficiências de vitaminas e algumas doenças podem participar do problema. Por isso, o hemograma — exame que avalia as células do sangue — é um ponto de partida, não a investigação inteira. [1]
Sentir-se bem não dispensa a avaliação. A importância do resultado não depende apenas do cansaço que a paciente percebe. A diretriz do Centre for Perioperative Care ressalta que a anemia pode não provocar sintomas. [2]
Por que isso importa antes de operar?
O consenso internacional ICCAMS recomenda procurar anemia antes de procedimentos que não sejam pequenos e investigar sua origem. Os estudos reunidos relacionam anemia pré-operatória a maior necessidade de transfusão e a desfechos menos favoráveis. Isso é uma associação: não significa que uma paciente com hemoglobina baixa necessariamente terá uma complicação. [3]
Essas recomendações abrangem diferentes cirurgias, não estabelecem uma regra exclusiva para a abdominoplastia. Sua aplicação ao procedimento exige considerar o planejamento cirúrgico, a avaliação clínica e a possibilidade de perda de sangue.
Hemoglobina baixa significa que preciso tomar ferro?
Não necessariamente. O ICCAMS orienta identificar a causa antes de definir o tratamento. Quando há suspeita de falta de ferro, a investigação pode incluir exames que avaliam suas reservas e sua disponibilidade no organismo. A ferritina ajuda a avaliar essas reservas, mas também pode aumentar em situações de inflamação: um resultado isolado não conta toda a história. [3]
Não comece ferro ou vitaminas por conta própria para tentar cumprir a data da cirurgia. O objetivo é tratar o problema identificado, e não apenas mudar um resultado laboratorial. A escolha do tratamento e a necessidade de novos exames devem ser combinadas com a equipe. [2]
Sangramento menstrual anormal precisa entrar na conversa
Menstruação intensa pode contribuir para deficiência de ferro e anemia. Outras perdas de sangue e outras causas também precisam ser consideradas, conforme o caso. [1]
Na minha prática, dou atenção especial aos sangramentos anormais. Conforme a causa que precisa ser investigada, podemos precisar de avaliação com ginecologista, hematologista — especialista em doenças do sangue — ou reumatologista, que avalia, entre outras condições, doenças inflamatórias e autoimunes. Não é uma lista de consultas obrigatórias para todas as pacientes: o encaminhamento depende da suspeita clínica.
Vale contar à equipe se houve mudança no padrão menstrual, sangramento fora do habitual, anemia anterior ou tratamento que não resolveu o problema. Essas informações ajudam a dirigir a investigação, sem substituir os exames e a avaliação médica.
E quem já fez cirurgia bariátrica?
Esse histórico precisa ser informado. O livro de cirurgia plástica de Neligan, uma das principais obras de referência da especialidade no mundo, destaca a importância de avaliar anemia e deficiências nutricionais em pessoas que perderam muito peso. Essa orientação não significa que exista um valor de hemoglobina que, sozinho, autorize a cirurgia. [4]
A informação prática é simples: leve também os exames anteriores e conte quais suplementos foram prescritos e como está o acompanhamento. O planejamento não deve se limitar ao exame mais recente.
Existe um valor que libera ou impede a abdominoplastia?
Não há, nas fontes citadas, um número que funcione como autorização universal para toda paciente fazer abdominoplastia. O valor usado para identificar anemia não substitui a decisão cirúrgica individual. A diretriz CPOC recomenda decisão compartilhada sobre adiar cirurgias de maior porte para permitir investigação e tratamento. [2]
Na minha conduta, esclarecer a causa vem primeiro. Se necessário, adiamos a cirurgia eletiva para tratar, discutindo o caso com o anestesista e com outros especialistas. Uma cirurgia que pode ser programada também permite escolher um momento mais adequado para a saúde da paciente.
O que levar para a próxima conversa com a equipe
- O hemograma completo, não apenas uma foto do valor da hemoglobina.
- Exames anteriores, para mostrar a evolução.
- Informações sobre sangramentos anormais e sintomas que apareceram.
- A lista dos medicamentos e suplementos em uso.
- O histórico de anemia, cirurgia bariátrica e tratamentos já realizados.
Uma pergunta útil é: “O que precisamos esclarecer antes de decidir a data?”. Outra é: “Quem acompanhará a investigação e quando vamos reavaliar?”. Essa organização não substitui o atendimento, mas ajuda a paciente a participar do planejamento. Para a visão geral da preparação, veja também os exames antes da cirurgia plástica.



