“Não é para a vida toda” não é uma data de validade
Autoridades regulatórias explicam que implantes mamários não são dispositivos vitalícios e que a probabilidade de algumas complicações aumenta com o tempo. Isso não significa que toda prótese precise ser trocada automaticamente aos dez anos: a duração varia e não pode ser prevista para cada pessoa.[1] Algumas complicações podem levar a nova cirurgia; a remoção também pode ser discutida com ou sem substituição.
A orientação da BAPRAS e uma reportagem de Brumby publicada no site da ASPS descrevem que não existe um cronograma universalmente acordado para troca. Existem páginas informativas que mencionam intervalos típicos, mas tais números não devem ser convertidos em obrigação individual.[2][3] A necessidade depende do tipo de implante, dos sintomas, do exame, de eventual imagem, de complicações e dos objetivos da paciente.
Monitorar não é o mesmo que trocar
Uma pergunta frequente é se a prótese está íntegra. Isso é diferente de decidir se ela deve ser retirada ou substituída. A FDA publicou, para os Estados Unidos, recomendações de rotulagem sobre exames de imagem para vigilância de ruptura de implantes de silicone.[4] Esse documento é de uma autoridade estrangeira e trata de monitoramento, não de uma data obrigatória de troca nem de uma regra brasileira que possa ser aplicada sem considerar o produto e o acompanhamento local.
Na consulta, leve, se tiver, o cartão ou os dados do implante e pergunte qual acompanhamento faz sentido para o seu caso. Se percebeu uma mudança na mama ou recebeu um resultado de exame alterado, comunique a equipe. Não espere completar um número redondo de anos para conversar — e não marque uma troca apenas por uma data encontrada na internet.
Se não existe prazo para trocar, o que eu oriento às minhas pacientes?
Eu costumo explicar isso de uma maneira bastante simples: não existe aquela história de que chegou a dez anos e obrigatoriamente precisamos trocar a prótese. Mas também não acho que a paciente deva colocar uma prótese e simplesmente esquecê-la.
São coisas diferentes.
Quem tem implante mamário precisa continuar acompanhando as próprias mamas ao longo da vida.
E uma parte desse acompanhamento começa em casa mesmo. Não estou falando em viver procurando problema ou ficar examinando a prótese todos os dias. Estou falando em conhecer suas mamas.
Se aquela mama sempre teve determinado formato e começa a mudar, se aparece um endurecimento que não existia, uma assimetria nova, dor persistente, inchaço, alteração do formato ou qualquer outra mudança que chame a atenção, converse com seu cirurgião.
Não espere chegar aos dez anos.
E também não espere a próxima consulta marcada se apareceu alguma coisa diferente.
A prótese pode romper — e nem sempre você percebe
Esse é outro ponto que precisa ficar claro: próteses mamárias podem romper.[1]
Às vezes, uma ruptura provoca alterações perceptíveis. A paciente pode perceber mudança no formato da mama, diferença de tamanho, endurecimento, dor ou alguma alteração que não existia antes.[1]
Mas uma prótese de silicone também pode apresentar uma chamada ruptura silenciosa. Ou seja: ela pode romper sem produzir uma mudança evidente para a paciente e, em algumas situações, nem mesmo o exame físico consegue identificar a ruptura.[1]
Por isso, observar a mama em casa é importante, mas não substitui o acompanhamento médico nem, quando indicado, os exames de imagem.
E quando fazer exame de imagem?
Eu não gosto de transformar isso em outra “data de validade”.
Existe uma recomendação da FDA, nos Estados Unidos, para implantes preenchidos com gel de silicone: em pacientes sem sintomas, realizar o primeiro ultrassom ou ressonância magnética entre cinco e seis anos depois da cirurgia e repetir periodicamente depois disso.[4]
Essa é uma recomendação americana de acompanhamento de ruptura e não uma regra automática para todas as pacientes brasileiras.
Na prática, eu prefiro individualizar.
O momento e o tipo de exame precisam considerar há quanto tempo a prótese foi colocada, qual é o implante, a idade da paciente, seus exames mamários habituais, o exame clínico e se apareceu ou não alguma alteração.
O mais importante é não confundir duas coisas:
fazer um exame para saber como está a prótese não significa que você precise trocá-la.
Se o implante está íntegro, a mama está bem e não existe nenhuma outra indicação para uma nova cirurgia, simplesmente ter completado determinado número de anos não é, para mim, motivo suficiente para operar.
Por outro lado, se existe uma alteração, não faz sentido esperar a prótese “completar dez anos” para investigar.
Minha orientação é: acompanhe, não fique contando os anos
Se eu pudesse resumir minha orientação para uma paciente que tem prótese de silicone, seria esta:
conheça suas mamas, observe mudanças e mantenha acompanhamento.
Se perceber alguma coisa diferente, converse com seu cirurgião.
Faça os exames mamários que já seriam indicados para você de acordo com sua idade e seus fatores de risco e, além disso, converse com seu médico sobre quando é adequado avaliar especificamente a integridade dos implantes.
Os exames destinados a avaliar a prótese não substituem a mamografia nem outros exames indicados para rastreamento do câncer de mama.
A prótese não precisa ser trocada simplesmente porque ficou “velha” no calendário.
Mas ela também não deve ser tratada como um dispositivo que colocamos hoje e nunca mais precisamos acompanhar.
O que determina uma nova cirurgia não é o aniversário da prótese. É o conjunto: como está a paciente, como está a mama, como está o implante e o que encontramos no acompanhamento.
Em resumo
Não existe uma validade universal para toda prótese. Acompanhar possíveis complicações, avaliar ruptura e decidir por uma troca são etapas diferentes, individualizadas com a equipe que conhece o implante e a história clínica.



