Dr Cadu Gazzinelli

Guia educativo

Uso semaglutida: preciso suspender antes de uma cirurgia plástica?

Em resumo

Pode ser necessário suspender, mas essa decisão não é igual para todas as pessoas. Quem usa semaglutida precisa informar o anestesiologista, o cirurgião e o médico que prescreveu o tratamento antes da operação. A decisão considera sintomas, fase do tratamento, controle do diabetes, técnica anestésica e recursos disponíveis no serviço. Não interrompa nem ajuste a medicação por conta própria. [2,4]

Receber orientações diferentes causa insegurança: uma pessoa escuta que pode manter o remédio, enquanto outra recebe uma instrução de pausa. O ponto de partida é obter um plano único, definido pela equipe responsável pelo seu procedimento. A orientação dada a outra paciente, mesmo que ela use a mesma marca, pode não servir para você.

Representação esquemática do estômago com conteúdo e três informações para a equipe: medicamento e dose, sintomas digestivos e avaliação conjunta.
A figura organiza as informações para o planejamento anestésico. Não define prazo de suspensão, jejum ou conduta individual.

Por que um medicamento para diabetes ou peso importa na anestesia?

A semaglutida pertence ao grupo de medicamentos que imitam a ação de um hormônio chamado GLP-1, envolvido no controle da glicose e da saciedade. Um de seus efeitos é retardar a saída de alimentos do estômago. Durante anestesia geral ou sedação profunda, quando a pessoa fica muito sonolenta e seus reflexos de proteção diminuem, isso exige atenção. [2,7]

Se o conteúdo do estômago voltar e entrar nas vias respiratórias, ocorre aspiração pulmonar, também chamada de broncoaspiração. Ela pode causar lesão pulmonar e pneumonia. A preocupação, portanto, envolve o que pode permanecer no estômago na hora do procedimento. Não é necessário que a cirurgia seja no abdome para que essa avaliação importe. [7]

A Anvisa divulgou, em 2024, um alerta sobre o uso desses medicamentos em pacientes submetidos a anestesia ou sedação profunda. [1] A agência reguladora britânica MHRA orienta informar o tratamento à equipe e avaliar o risco individualmente. Esse risco não significa que toda pessoa em tratamento terá aspiração. [7]

O que a equipe precisa saber antes de decidir?

O nome comercial sozinho é insuficiente. Leve uma lista que permita entender como o tratamento está sendo usado:

Essa organização ajuda a consulta a produzir instruções claras. Se você não lembra a dose, leve a embalagem ou uma foto da prescrição. Dizer apenas “uso uma caneta” pode omitir informações necessárias. O tratamento também deve ser informado quando a finalidade é emagrecimento e quando já houve uma pausa recente. [2,4,7]

Início do tratamento e aumento de dose mudam a avaliação

A fase em que a dose é aumentada gradualmente pode trazer mais efeitos digestivos. Náuseas, vômitos e outros sintomas precisam ser considerados antes de uma cirurgia programada. Conforme o quadro, a equipe pode preferir esperar até que essa fase termine e os sintomas melhorem. [3]

Imagine dois exemplos hipotéticos: uma paciente mantém a mesma dose há bastante tempo, alimenta-se normalmente e não apresenta queixas; outra acabou de aumentar a dose e sente empachamento persistente. A avaliação delas pode levar a planos diferentes. Estabilidade e ausência de sintomas ajudam a compor o raciocínio, mas não dão autorização automática para manter o medicamento. [3,5]

Além disso, sentir-se bem não prova que o estômago esteja vazio. O consenso britânico de 2025 ressalta que sintomas, isoladamente, não determinam a presença de conteúdo gástrico. Outras condições clínicas e a forma de realizar a anestesia também entram na decisão. [6]

O que mudou nas orientações — e por que existem diferenças?

O documento de várias sociedades norte-americanas divulgado em 2024, com participação da Sociedade Americana de Anestesiologistas, admite manter o tratamento em pacientes sem risco aumentado. Para situações de maior risco, propõe medidas como adaptação da alimentação, avaliação do estômago e mudanças no plano anestésico. A escolha deve ser compartilhada entre as equipes. [2,3]

No Brasil, o posicionamento conjunto da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), da Sociedade Brasileira de Anestesiologia (SBA) e da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (ABESO), na edição de 2026, diferencia pacientes com esquema estável e sem fatores de risco daqueles em aumento de dose ou com maior risco. A própria diretriz reconhece que não há intervalo de suspensão universalmente estabelecido como seguro. [5]

A nota complementar da SBA, C.SBA 01744/2026, acrescenta um ponto operacional importante: recomenda organizar a manutenção do medicamento com avaliação por ultrassom do estômago no dia da cirurgia, realizada por profissional treinado. Se esse recurso não puder ser utilizado conforme a nota, orienta seguir a estratégia de suspensão descrita no documento. [4]

O consenso britânico de 2025 também favorece a continuidade com avaliação individual e medidas para reduzir risco. As recomendações, porém, não são idênticas na maneira de preparar e avaliar cada paciente. Essa comparação explica por que ler somente “pode continuar” ou “deve parar” perde condições essenciais. A equipe deve indicar qual conduta se aplica ao serviço e ao seu caso. [6]

Fazer mais jejum resolve?

Não se deve presumir isso. Pode haver alimento residual apesar de um jejum convencional cumprido corretamente. A agência britânica MHRA destaca essa possibilidade em seu comunicado de segurança. Alongar o jejum por iniciativa própria não substitui a avaliação nem garante proteção. [7]

As recomendações brasileiras citadas incluem uma etapa de dieta líquida no preparo dos pacientes em uso desses medicamentos que serão submetidos a sedação ou anestesia geral, conforme o contexto de cada documento. “Dieta líquida” e “jejum” não significam a mesma coisa. Peça por escrito quais bebidas são permitidas e em que horários; não decida que leite, vitaminas e sopas fazem parte da orientação apenas por serem líquidos. As instruções devem ser específicas para você. [4,5]

Quando indicado e disponível, o ultrassom gástrico ajuda a verificar se há conteúdo no estômago. Ele exige treinamento e possui limites. Seu resultado integra a avaliação anestésica; não é um certificado isolado de risco zero. Dependendo da situação, pode haver mudança da técnica anestésica ou adiamento do procedimento. [2,6]

E se eu tenho diabetes ou minha cirurgia está próxima?

Na pessoa com diabetes, suspender um medicamento pode afetar a glicemia, isto é, a quantidade de glicose no sangue. O planejamento precisa incluir o controle dessa glicose antes e depois da operação. Não troque semaglutida por outro remédio, não ajuste insulina e não compense doses sozinho. [5]

Se a cirurgia está próxima e você ainda não recebeu instruções, avise a equipe com a dose e a data da última administração. Não omita uma aplicação por receio de cancelamento. A informação permite avaliar opções com antecedência. Da mesma forma, vômitos ou dificuldade para se alimentar devem ser comunicados antes de comparecer ao procedimento. [3,7]

Ao terminar a consulta, o plano deve responder a quatro perguntas: manter ou suspender; como preparar a alimentação e o jejum; como acompanhar o diabetes, quando houver; e quem orientará a retomada. A organização desses passos ajuda a evitar ordens conflitantes entre a prescrição habitual e o preparo cirúrgico. [5,6,8]

Perguntas frequentes

1. Uso Ozempic ou Wegovy só para emagrecer. Também preciso avisar?

Sim. O risco relacionado à permanência de conteúdo no estômago importa mesmo quando o tratamento não é para diabetes. Informe nome, dose, frequência, última aplicação e sintomas. A finalidade do uso entra no planejamento, mas não dispensa a avaliação anestésica. [7]

2. E se minha semaglutida for em comprimido?

Informe da mesma maneira. A apresentação oral não elimina a necessidade de avaliação do efeito sobre o estômago. Não copie uma pausa indicada para a caneta: apresentação, uso e contexto clínico precisam constar do plano definido pela equipe. [2,7]

3. Tomar a dose habitual perto da cirurgia obriga a cancelar?

Não automaticamente. A equipe precisa saber o que foi tomado, quando e em qual dose, além de avaliar sintomas e recursos disponíveis. A decisão pode envolver reavaliação do preparo, da anestesia ou da data. Não tente corrigir a situação com jejum prolongado por conta própria. [6,7]

4. Sem náusea e com jejum correto, o risco desaparece?

Não. A ausência de náusea não comprova que o estômago esteja vazio, e pode existir conteúdo residual apesar do jejum. Esses dados são parte da avaliação, junto com outros fatores clínicos. Por isso, o uso do medicamento precisa ser informado mesmo quando você se sente bem. [6,7]

5. Cirurgia com anestesia local exige a mesma pausa?

O plano depende da técnica completa, inclusive de haver sedação e de sua profundidade. “Anestesia local” não informa, sozinha, tudo o que será utilizado. Confirme com a equipe como o procedimento será feito antes de concluir que pode manter ou precisa suspender a medicação. [4]

6. Quando posso voltar à semaglutida depois da operação?

Combine a retomada com o prescritor e a equipe cirúrgica. Alimentação, sintomas digestivos, evolução da cirurgia e controle da glicose precisam ser considerados. Se houve interrupção, não compense doses nem escolha sozinho como retornar; peça essa orientação antes da alta. [5,8]

Referências

  1. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Anvisa alerta sobre risco do uso de medicamentos agonistas GLP-1 em pacientes que serão submetidos a anestesia ou sedação profunda [Internet]. 16 set 2024. Disponível em: divulgação oficial do alerta.

  2. Kindel TL, Wang AY, Wadhwa A, et al. Multi-society clinical practice guidance for the safe use of glucagon-like peptide-1 receptor agonists in the perioperative period. Surg Endosc. 2025;39(1):180-183. Publicado online em 29 out 2024. doi: 10.1007/s00464-024-11263-2. Disponível em: documento multidisciplinar.

  3. American Society of Anesthesiologists. New Multi-Society GLP-1 Clinical Practice Guidance Released [Internet]. 29 out 2024. Disponível em: orientação da sociedade.

  4. Sociedade Brasileira de Anestesiologia. Nota de atualização sobre as recomendações do manejo perioperatório dos agonistas do receptor GLP-1 e coagonistas GLP-1/GIP. C.SBA 01744/2026 [Internet]. 15 maio 2026. Disponível em: nota oficial da SBA.

  5. Sociedade Brasileira de Diabetes; Sociedade Brasileira de Anestesiologia; Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica. Rastreamento e Controle da Hiperglicemia no Perioperatório: Posicionamento Conjunto [Internet]. Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes. Edição 2026. Disponível em: posicionamento conjunto.

  6. El-Boghdadly K, Dhesi J, Fabb P, et al. Elective peri-operative management of adults taking glucagon-like peptide-1 receptor agonists, glucose-dependent insulinotropic peptide agonists and sodium-glucose cotransporter-2 inhibitors: a multidisciplinary consensus statement. Anaesthesia. 2025;80(4):412-424. doi: 10.1111/anae.16541. Disponível em: consenso britânico.

  7. Medicines and Healthcare products Regulatory Agency. GLP-1 and dual GIP/GLP-1 receptor agonists: potential risk of pulmonary aspiration during general anaesthesia or deep sedation [Internet]. Drug Safety Update. 28 jan 2025. Disponível em: comunicado oficial de segurança.

  8. Oprea AD, Ostapenko LJ, Sweitzer B, et al. Perioperative management of patients taking glucagon-like peptide 1 receptor agonists: Society for Perioperative Assessment and Quality Improvement (SPAQI) multidisciplinary consensus statement. Br J Anaesth. 2025;135(1):48-78. doi: 10.1016/j.bja.2025.04.001. PMID: 40379536. Disponível em: consenso SPAQI.

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Dr. Cadu Gazzinelli

Conteúdo revisado por Dr. Cadu Gazzinelli — Cirurgião Plástico, CRM-MG 46604 · RQE 33588. Conheça o Dr. Cadu

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