Autoria: Dr. Cadu Gazzinelli — Cirurgião plástico, CRM-MG 46604 · RQE 33588.
Sim. O uso de vape precisa ser informado ao cirurgião e ao anestesista, e sua interrupção deve fazer parte do planejamento da cirurgia. Isso vale também quando você usa apenas de vez em quando ou acredita que o produto não contém nicotina. A literatura recomenda cautela, embora ainda existam dúvidas sobre o tamanho exato dos riscos em quem utiliza cigarros eletrônicos. [1,2]
Na minha prática, recomendo interromper o vape pelo menos dois meses antes da cirurgia plástica. Essa é minha orientação clínica, considerando que estamos preparando uma cirurgia eletiva: podemos escolher o momento de operar e priorizar a saúde da paciente.
Se estiver difícil parar ou se você usou perto da data prevista, avise. Essa conversa serve para organizar os cuidados, não para julgar.
Por que o vape entra na conversa sobre a cirurgia?
Vape, pod e cigarro eletrônico são nomes usados para dispositivos que aquecem um líquido e produzem um aerossol — pequenas partículas suspensas no ar que são inaladas. Não se trata apenas de vapor de água. A composição pode incluir nicotina, solventes e aromatizantes. [3]
Quando existe nicotina, uma das preocupações é seu efeito sobre os vasos sanguíneos. Ela pode provocar estreitamento dos vasos e alterações na circulação. Em um estudo com voluntários, o vape com nicotina alterou medidas do funcionamento vascular. Isso ajuda a entender a preocupação médica, mas não permite prever, isoladamente, como será a cicatrização de determinada paciente. [3]
Uma revisão sistemática sobre vape e cicatrização encontrou evidências provenientes de pesquisas com voluntários, células e animais. Os autores recomendaram interromper seu uso no período da cirurgia, reconhecendo a escassez de estudos clínicos diretamente aplicáveis a pacientes operados. Não significa que toda pessoa que usa vape terá uma complicação. Significa que existe uma exposição que merece ser considerada no planejamento. [2]
A nicotina é a única responsável?
Não. Também não é correto atribuir à nicotina isolada todos os efeitos conhecidos do cigarro convencional.
Um estudo publicado em 2026 encontrou associação entre o uso de produtos com nicotina e complicações de cicatrização em cirurgia estética. Entretanto, por ser uma pesquisa retrospectiva, baseada em registros anteriores, não consegue separar perfeitamente todos os fatores envolvidos. Também não demonstra que cigarro, vape e reposição de nicotina tenham exatamente o mesmo risco. [4]
Essa distinção importa: reconhecer uma preocupação não exige exagerar a certeza científica.
E se o meu vape não tiver nicotina?
A ausência de nicotina não deve ser interpretada como uma liberação automática para usar antes da cirurgia.
Os resultados das pesquisas não são uniformes. Um estudo identificou alterações transitórias da circulação após a inalação de aerossol sem nicotina. Outro, com condições de exposição e medidas diferentes, não encontrou alterações nos parâmetros cardiovasculares avaliados quando não havia nicotina. [3,5]
Essas pesquisas não acompanharam a cicatrização de pacientes após cirurgia plástica. Portanto, não comprovam nem que todo vape sem nicotina prejudica a recuperação, nem que seu uso seja seguro nesse contexto.
Na consulta, informe o produto utilizado e, se possível, leve uma fotografia da embalagem ou da composição. Não presuma que a informação “sem nicotina” encerra a avaliação.
Quanto tempo antes é preciso parar?
Na minha orientação, pelo menos dois meses antes.
É importante distinguir essa conduta de um prazo universal comprovado especificamente para o vape. A Sociedade Americana de Cirurgiões Plásticos recomenda, em seu documento de referência, interromper o cigarro convencional por 4–8 semanas antes da cirurgia e considerar intervalo semelhante para cigarros eletrônicos, diante das limitações da evidência disponível. [1]
O prazo faz parte do planejamento, mas não funciona como um certificado de risco zero. Também não substitui a avaliação do procedimento e das condições de saúde.
Usei vape perto da cirurgia. E agora?
Entre em contato com a equipe e explique quando foi o último uso, com que frequência costuma utilizar e se o produto contém nicotina.
Na minha prática, peço que essa informação seja compartilhada sem constrangimento. Prefiro conhecer a situação real para discutirmos o planejamento.
Não decida sozinha que algumas tragadas são irrelevantes — nem conclua que a cirurgia está automaticamente cancelada. A equipe precisa avaliar o caso. Como se trata de uma cirurgia eletiva, ajustar a data pode fazer parte do cuidado quando necessário.
O que contar ao cirurgião e ao anestesista?
Para facilitar a conversa, organize estas informações:
- Qual dispositivo e líquido você utiliza.
- Se há nicotina e qual concentração aparece na embalagem.
- Frequência de uso e quando utilizou pela última vez.
- Se também fuma cigarro ou usa outros produtos com nicotina.
- Se está tendo dificuldade para interromper o uso.
Esses dados ajudam a equipe a compreender a exposição e planejar a interrupção. Não é necessário esperar a consulta imediatamente anterior à cirurgia para conversar sobre isso. [1]



