Autoria: Dr. Cadu Gazzinelli — Cirurgião plástico, CRM-MG 46604 · RQE 33588.
Não remaneje a cirurgia nem tente alterar o ciclo por conta própria. Avise o cirurgião e converse sobre seu fluxo, sintomas e histórico de saúde. A literatura sobre a fase menstrual e a redução das mamas é limitada: existem estudos pequenos com achados relevantes, mas eles não permitem estabelecer uma regra de remarcação para todas as pacientes. [1,2]
A dúvida costuma aparecer depois que tudo está organizado: a menstruação pode coincidir com a operação. Antes de procurar uma forma de impedir o sangramento, vale separar duas questões. Uma é o período do ciclo em que a cirurgia acontecerá. Outra é a existência de sangramento intenso ou diferente do habitual, que merece avaliação por si só.
Não é correto dizer que o ciclo nunca faz diferença
Em 2004, uma pesquisa com 35 pacientes submetidas à redução das mamas encontrou menor perda de sangue e menor drenagem após a cirurgia no período próximo à ovulação, quando comparado ao período próximo à menstruação. Ovulação é a liberação do óvulo durante o ciclo. [1]
O resultado merece consideração, mas o estudo é pequeno e específico de redução mamária. Não é suficiente para prever o sangramento de uma paciente, aplicar um calendário obrigatório a toda cirurgia das mamas ou orientar a retirada de drenos pela fase do ciclo. [1]
Outro estudo, publicado em 2016, analisou retrospectivamente 49 pacientes de até 25 anos que fizeram redução das mamas. A fase posterior à ovulação esteve associada a mais abertura da ferida e cicatrizes elevadas e espessas. Não foi encontrada diferença estatisticamente significativa em outros problemas avaliados, como acúmulo de sangue ou infecção. [2]
Isso não significa que os riscos sejam iguais em qualquer fase, nem comprova que os hormônios causaram as alterações observadas. O grupo era pequeno, jovem e submetido a um procedimento específico. Além disso, a fase posterior à ovulação não é sinônimo de estar sangrando no dia da cirurgia. [2]
O que esses resultados significam para você?
Eles justificam uma conversa cuidadosa, não uma proibição automática. Também mostram por que respostas absolutas — “não interfere em nada” ou “menstruada não pode operar” — deixam de representar adequadamente a evidência citada.
Os dois estudos avaliaram redução das mamas. Não devemos transferir suas conclusões sem ressalvas para colocação de prótese, retirada de implantes ou todas as técnicas de levantamento das mamas. Uma pergunta útil para o consultório é: “Para a minha cirurgia e o meu histórico, essa coincidência muda o planejamento?”.
Fluxo intenso não deve ser tratado como simples questão de agenda
Conte se o sangramento está mais intenso ou prolongado que o habitual, se interfere na sua rotina e se existe investigação ou tratamento ginecológico em andamento. Informe também diagnóstico anterior de anemia, que é a redução da capacidade do sangue de transportar oxigênio, frequentemente identificada por hemoglobina baixa.
A diretriz britânica NICE sobre sangramento menstrual intenso recomenda avaliação do histórico e hemograma, exame que analisa as células do sangue. Essa orientação trata do sangramento intenso; não significa que toda mulher menstruada precise de exames adicionais para uma cirurgia das mamas. [3]
Quando há uma alteração a esclarecer, o objetivo não é apenas escolher um dia sem menstruação. É entender a situação de saúde. A discussão específica sobre investigação de hemoglobina está em hemoglobina baixa antes da abdominoplastia, sem transformar o procedimento daquele texto em regra para este.
Posso tomar alguma coisa para a menstruação não vir?
Não inicie, interrompa ou mude um tratamento hormonal com base neste artigo. Se você já usa anticoncepcional ou outro hormônio, informe à equipe o produto e o modo de uso. A avaliação antes da anestesia inclui os medicamentos em uso, e uma mudança no tratamento deve ser discutida com os médicos responsáveis. [4]
Também vale esclarecer com o hospital as questões práticas de higiene e proteção menstrual no dia da internação. Isso evita improvisar e não substitui a decisão médica sobre manter a operação.
Como conduzo essa situação na minha prática
Na minha prática, quando é possível, prefiro adiar a cirurgia se ela coincidir com a menstruação, por uma questão de higiene. Mas isso não é obrigatório: considero cada situação antes de decidir com a paciente.
Essa é uma preferência do meu planejamento clínico. Não significa que a menstruação torne toda cirurgia insegura, nem que os estudos citados imponham essa conduta.
Conteúdo educativo. Não substitui consulta, avaliação ginecológica ou planejamento cirúrgico individual.



