
Uma das coisas que mais confundem quando falamos de prótese de silicone é esta ideia:
“Se a prótese tivesse rompido, eu perceberia.”
Nem sempre.
Às vezes a paciente não sente absolutamente nada. A mama continua com um formato parecido, não dói, não aumenta de volume e, mesmo assim, um exame de imagem mostra uma alteração no implante.
É justamente por isso que existe o termo ruptura silenciosa.
Mas quero fazer uma distinção desde o começo: descobrir uma possível ruptura em um exame não significa que aconteceu uma emergência. Também não significa que qualquer dor, endurecimento ou mudança da mama seja necessariamente causada por ruptura.
Primeiro precisamos entender o que realmente está acontecendo.
O que exatamente rompe quando falamos em ruptura da prótese?
A prótese de silicone possui uma cobertura externa, que chamamos de envelope do implante. É esse envelope que contém o gel de silicone.
Depois que colocamos a prótese, o próprio organismo forma ao redor dela uma camada de tecido cicatricial. Essa camada recebe o nome de cápsula. [1,4]
São duas coisas diferentes.
Isso parece um detalhe, mas ajuda muito a entender os laudos.
Quando o envelope da prótese se rompe, mas o silicone continua contido dentro da cápsula formada pelo organismo, chamamos de ruptura intracapsular.
Quando o silicone ultrapassa também essa cápsula e chega aos tecidos ao redor, falamos em ruptura extracapsular. [1]
Portanto, quando alguém lê “ruptura intracapsular”, isso não quer dizer que a cápsula do organismo rompeu. Quem rompeu foi o envelope do implante, enquanto o silicone permaneceu contido pela cápsula ao redor dele.
Também existe outra situação que frequentemente entra nessa conversa: a contratura capsular.
Na contratura, a cápsula pode ficar mais espessa e apertar a prótese. A mama pode endurecer ou mudar de formato. Mas contratura capsular e ruptura não são a mesma coisa. [1]
Uma prótese pode estar rompida sem uma mama endurecida.
E uma mama pode estar endurecida sem que a prótese esteja rompida.
Como uma prótese pode romper e a mama continuar praticamente igual?
Porque uma prótese de silicone não funciona como um balão cheio de água.
Quando há uma ruptura, a mama não necessariamente “esvazia”.
O gel de silicone pode continuar bastante contido, principalmente nas rupturas intracapsulares, e a aparência externa pode mudar muito pouco. [1]
Por isso, frases como:
“Minha mama está bonita, então a prótese deve estar perfeita.”
ou
“Não sinto nada, então não pode haver ruptura.”
não são conclusões seguras.
Ao mesmo tempo, é importante não fazer o raciocínio contrário.
Ter dor não significa automaticamente que a prótese rompeu.
Ter uma mama um pouco diferente da outra também não.
Quando existem sintomas relacionados à ruptura, podem ocorrer mudanças no formato ou na consistência da mama, assimetria, caroços, sensibilidade ou dor. Mas esses mesmos sintomas podem aparecer por outras causas. [1]
É por isso que eu gosto de separar uma coisa da outra:
perceber uma mudança é tarefa da paciente; descobrir a causa dessa mudança é tarefa da avaliação médica.
Conhecer suas mamas é importante. Tentar diagnosticá-las em casa, não.
Então como saber se a prótese está rompida?
É aí que entram os exames de imagem.
E existe outro ponto que costuma gerar confusão: ultrassom, ressonância e mamografia não são simplesmente três maneiras diferentes de fazer a mesma coisa.
Cada exame pode responder melhor a determinadas perguntas.
Ultrassonografia
A ultrassonografia utiliza ondas sonoras e pode avaliar tanto o implante quanto estruturas próximas.
É um exame muito utilizado na avaliação das mamas e também pode identificar alterações relacionadas à prótese. [3]
Ressonância magnética
A ressonância permite uma avaliação bastante detalhada do implante e tem papel importante quando existe suspeita de complicação ou quando alguma dúvida precisa ser esclarecida. [3]
Quando a pergunta é especificamente sobre a integridade do implante, geralmente se utiliza um protocolo de ressonância sem contraste.
Isso é diferente de uma ressonância feita para investigar determinadas alterações do tecido mamário, situação em que o protocolo pode ser outro. [3]
E esse detalhe é importante.
Não basta simplesmente dizer:
“Quero fazer uma ressonância da mama.”
A pergunta clínica precisa estar clara.
Estamos querendo saber se a prótese está íntegra?
Estamos investigando um nódulo?
Estamos avaliando outra alteração da mama?
O exame deve ser escolhido e realizado para responder à pergunta que realmente queremos fazer.
E a mamografia?
A mamografia continua tendo seu papel no rastreamento do câncer de mama quando está indicada.
Ter prótese de silicone não elimina automaticamente a necessidade de mamografia.
Mas uma mamografia normal também não serve como garantia de que o implante está íntegro. [5]
São perguntas diferentes.
A clínica de radiologia deve saber que a paciente possui implantes para realizar as técnicas apropriadas.
Nos casos de reconstrução mamária após câncer, o acompanhamento pode ser diferente e depende do tipo de cirurgia realizada. [5]
Se eu não sinto nada, preciso fazer exames da prótese?
Essa é uma pergunta em que é muito fácil transformar uma recomendação em uma regra rígida.
A FDA, agência reguladora dos Estados Unidos, recomenda que mulheres com implantes de silicone considerem ultrassonografia ou ressonância para avaliação do implante a partir de cinco a seis anos da cirurgia e, depois, a cada dois a três anos. [2]
Mas é importante entender exatamente o que essa frase quer dizer.
Essa é uma recomendação americana de acompanhamento. Não é uma regra brasileira universal dizendo que toda paciente precisa, obrigatoriamente, fazer determinado exame naquele aniversário da cirurgia.
O acompanhamento precisa considerar o tipo de implante, o histórico da paciente, seus exames anteriores, sintomas, achados clínicos e a orientação da equipe que a acompanha. [2,7]
Eu costumo explicar essa questão de uma forma simples: colocar uma prótese não significa que você precise passar o resto da vida pensando nela todos os dias.
Mas também não significa colocar a prótese e esquecer que ela existe.
São coisas diferentes.
Acompanhar não é viver procurando um problema.
É ter um plano.
Conheça suas mamas — mas não transforme isso em vigilância constante
Para mim, esse é um dos pontos mais úteis para quem tem implantes.
Saiba como suas mamas costumam ser.
Se uma mama que sempre teve determinado formato começa a mudar, se aparece um endurecimento que não existia, uma assimetria nova, um inchaço ou uma dor persistente, vale conversar com seu cirurgião.
Isso não quer dizer que você descobriu uma ruptura.
Quer dizer apenas:
“Isto está diferente do meu habitual.”
A partir daí, nós investigamos.
Por outro lado, a ruptura pode ser silenciosa. Então conhecer a mama não substitui o acompanhamento médico quando ele é indicado.
As duas coisas precisam caminhar juntas.
Meu exame falou em “suspeita de ruptura”. Preciso operar?
Não necessariamente.
Aliás, a primeira coisa que eu faria nessa situação não seria discutir a cirurgia. Seria discutir o diagnóstico.
Existe diferença entre:
- ruptura confirmada;
- suspeita de ruptura;
- exame inconclusivo;
- achado que precisa ser comparado com exames anteriores;
- alteração da prótese associada a outros problemas da mama.
Por isso é muito útil levar para a consulta não apenas o texto do laudo, mas também as imagens do exame. [3,4]
Confirmada a ruptura, aí sim começamos outra conversa.
Onde está o silicone?
A paciente tem sintomas?
Existe contratura?
Existe alteração dos tecidos ao redor?
Existe alguma outra questão mamária acontecendo ao mesmo tempo?
Quais são as condições clínicas para uma nova cirurgia?
A paciente deseja permanecer com implantes ou está considerando retirá-los?
Essas perguntas mudam a decisão.
A retirada de um implante rompido pode ser indicada e pode ser acompanhada ou não da colocação de uma nova prótese. Em algumas situações de ruptura silenciosa, pode haver discussão individualizada sobre acompanhamento. A necessidade de tratar a cápsula ou outros tecidos também depende do caso. [1,4]
Portanto, a frase:
“Minha prótese rompeu.”
ainda não responde:
“Qual cirurgia eu preciso fazer?”
Isso precisa ser decidido depois.
Ruptura de prótese é uma emergência?
Na maioria das situações em que estamos falando de uma ruptura silenciosa descoberta em exame, não estamos falando de uma emergência simplesmente porque apareceu a palavra “ruptura” no laudo.
Mas existem situações em que a avaliação precisa ser mais rápida.
Aumento rápido do volume da mama, vermelhidão importante, calor local, febre ou dor intensa em piora merecem avaliação prontamente.
E repare que esses sintomas não significam necessariamente ruptura.
Eles podem apontar para outras complicações, como infecção ou acúmulo de líquido ou sangue.
Da mesma maneira, um caroço novo, inchaço persistente ou uma alteração na axila não deve simplesmente ser atribuída à prótese sem investigação. [1]
É justamente por isso que eu não gosto da ideia de interpretar um sintoma isolado.
Primeiro entendemos o problema.
Depois decidimos o que fazer.
O que levar para a consulta se existe suspeita de ruptura?
Se tiver, leve:
- o laudo do exame;
- as próprias imagens do exame;
- cartão ou documentação da prótese;
- data da cirurgia;
- informações sobre cirurgias ou trocas anteriores;
- exames antigos das mamas.
Comparar um exame com outro pode ser extremamente útil.
E algumas perguntas ajudam bastante na consulta:
A ruptura está confirmada ou é apenas suspeita?
O silicone permanece contido?
Preciso complementar a investigação com outro exame?
Existe alguma outra alteração da mama que precisamos investigar?
Se houver indicação de cirurgia, quais são minhas opções?
Isso produz uma conversa muito melhor do que simplesmente receber um laudo e concluir:
“Minha prótese rompeu, preciso trocar correndo.”
A prótese de silicone dura para sempre?
Não devemos considerar um implante mamário um dispositivo garantido para durar a vida inteira. Novas cirurgias podem ser necessárias ao longo dos anos. [6]
Mas isso também não significa que toda prótese tenha uma data de validade fixa.
Não existe aquela história de que chegou a determinado aniversário e surgiu automaticamente uma obrigação de trocar.
O raciocínio é outro.
Acompanhe, não fique contando os anos.
O tempo de uso importa, claro. Mas ele é apenas uma das informações.
O que interessa é como está a paciente, como estão suas mamas, como está o implante e o que os exames mostram quando existe indicação de fazê-los.
Perguntas frequentes
Se eu não sinto dor, posso ter uma prótese rompida?
Sim. A ruptura silenciosa pode não causar dor nem uma mudança perceptível no formato da mama. Por isso, ausência de sintomas não garante que o implante esteja íntegro. [1,2]
Também não há motivo para tentar verificar a prótese apertando ou examinando a mama repetidamente. O acompanhamento deve ser discutido com seu cirurgião.
Ruptura intracapsular significa que minha cápsula rompeu?
Não.
Na ruptura intracapsular, quem rompeu foi o envelope da prótese. O silicone continua contido dentro da cápsula de tecido formada pelo seu organismo ao redor do implante. [1]
Na ruptura extracapsular, o silicone ultrapassa essa cápsula.
Mamografia normal significa que a prótese está perfeita?
Não.
A mamografia tem um papel importante no rastreamento do câncer de mama quando indicada, mas não exclui todas as rupturas de implantes de silicone. [5]
Avaliar a mama e avaliar a integridade da prótese são questões relacionadas, mas não idênticas.
Toda ressonância para prótese precisa de contraste?
Não.
Quando a finalidade é avaliar a integridade do implante, costuma-se utilizar uma ressonância sem contraste. [3]
Se existir outra pergunta clínica — por exemplo, investigação de uma lesão da própria mama — o protocolo pode ser diferente.
Prótese rompida causa câncer?
Ruptura do implante e câncer são problemas diferentes.
Uma ruptura é uma falha do envelope da prótese. Ela não significa que a paciente tenha câncer. [1]
Ao mesmo tempo, um nódulo, aumento persistente da mama ou outra alteração não deve ser simplesmente atribuído a “silicone vazando”. Essas situações precisam ser avaliadas da forma adequada.
Se precisar operar, sou obrigada a colocar outra prótese?
Não.
Retirar o implante e não colocar outro é uma possibilidade.
Substituí-lo é outra.
Em algumas situações também pode ser discutida uma cirurgia para remodelar a mama. [1,7]
São decisões diferentes. Elas dependem das condições dos tecidos, das características da cirurgia anterior, dos riscos de uma nova operação e, evidentemente, daquilo que a própria paciente deseja.
O ponto mais importante
Se eu pudesse resumir este assunto em uma ideia, seria esta:
uma mama aparentemente normal não garante que a prótese esteja íntegra, mas uma alteração em um exame também não deve ser interpretada isoladamente como uma emergência.
Conheça suas mamas.
Mantenha um acompanhamento coerente.
Se perceber alguma mudança, converse com seu cirurgião.
E, se um exame trouxer suspeita de ruptura, primeiro esclareça exatamente o que ele mostrou.
A decisão vem depois do diagnóstico — não antes dele.
Referências
US Food and Drug Administration. Risks and Complications of Breast Implants. Atualização de 14 dez 2023.
https://www.fda.gov/medical-devices/breast-implants/risks-and-complications-breast-implants
US Food and Drug Administration. Breast Implants — Certain Labeling Recommendations to Improve Patient Communication: Guidance for Industry and Food and Drug Administration Staff. Setembro de 2020.
American College of Radiology. ACR Appropriateness Criteria: Breast Implant Evaluation. Revised 2025.
Hillard C, Fowler JD, Barta R, Cunningham B. Silicone breast implant rupture: a review. Gland Surg. 2017;6(2):163-168. doi:10.21037/gs.2016.09.12.
US Food and Drug Administration. Frequently Asked Questions About MQSA: Breast Implants.
American Society of Plastic Surgeons. Breast Augmentation Risks and Safety.
https://www.plasticsurgery.org/cosmetic-procedures/breast-augmentation/safety
US Food and Drug Administration. What to Know About Breast Implants.
https://www.fda.gov/consumers/consumer-updates/what-know-about-breast-implants


